Vergonhoso e ultrajante!

Agraciado é alvo de repúdio em todo o país (Reprodução)
Agraciado é alvo de repúdio em todo o país
(Reprodução)

Na sessão ordinária de ontem (26) da Câmara Municipal de Rondonópolis, foi aprovado por maioria, o projeto do vereador Paulo Schuh (DC) que concede a Jair Bolsonaro o Título de Cidadão Rondonopolitano, o que, no mínimo, surpreende a todos nós moradores da cidade, pelo despropósito e pelo momento angustiante que o país, de forma generalizada, atravessa com a pandemia de coronavírus, que entrou esta semana na terceira onda de contaminação e pela qual ele é responsável direto.
A aprovação por 18 dos 21 vereadores, que recebeu votação contrária somente dos vereadores Júnior Mendonça, o Junião (PT), e Ozeias Reis (PP), bem como abstenção natural do presidente do Poder Legislativo, vereador Roni Magnani (SD), não só envergonha a população rondonopolitana, mas é um verdadeiro “tapa na cara”, das famílias locais que perderam seus entes queridos para o vírus, que do início da pandemia até hoje já causou o óbito de 777 pessoas, de acordo com o Boletim Epidemiológico de ontem, da Secretaria Municipal de Saúde (SMS). Isso, sem nos adentrarmos em detalhes, quanto as 454.429 vidas interrompidas na luta contra a doença, a nível de Brasil, conforme os dados divulgados ontem, pelo Ministério da Saúde (MS).
Sem dar a devida importância para o artigo XVII da Lei Orgânica do Município, que trata da concessão do “Título de Cidadão Rondonopolitano”, que dentre outros critérios destina a honraria a personalidades brasileiras ou não, que tenham prestado relevantes serviços ao município de Rondonópolis ou ao estado de Mato Grosso ou ainda de alcance nacional/internacional; e a pessoas com feitos extraordinários em favor da Humanidade (grafias nossas), os vereadores favoráveis passaram uma borracha por cima dos absurdos que o homenageado mencionou sobre o coronavírus, como por exemplo, de que era uma gripezinha; um resfriadinho ou sobre as falta de vacinas (por ter protelado a aquisição das mesmas e utilizado mais de R$ 3 bilhões para eleger os presidentes do Senado e da Câmara dos Deputados), quando recentemente disse ao interlocutor que fez a pergunta, que ele fosse perguntar à sua mãe.
Os vereadores que aprovaram a concessão da honraria, também fecharam os olhos para as cerca de 2,5 mortes diárias que vêm sendo registradas no país, afora o índice alarmante de contaminação que abriu brechas para a disseminação de variantes do vírus, como a cepa indiana, que já foi detectada em Rondonópolis em um carreteiro proveniente de Santa Catarina, que está intubado na UTI Covid-19 do Hospital Regional Irmã Elza Giovanella, desde a terça-feira (25).
Seriam cômicas, se não fossem trágicas, as frágeis justificativas da maioria dos vereadores para ter endossado o projeto do vereador Paulo Schuh, notadamente bolsonarista, como a da vereadora e ex-secretária municipal de Saúde, Marildes Ferreira (PSB), de que respeita Bolsonaro como chefe de estado e que votou favorável também em respeito ao vereador proponente, “apesar de Mato Grosso do Sul ter recebido mais vacinas do que nosso Estado”; a do vereador Roni Cardoso (PSD), de que votou a favor, mas ressalvou que assim havia votado mais pelo pedido do colega vereador, “mas tem muita gente que fez muito pela cidade que também merece”; a do vereador Reginaldo Santos (SD), que se diz representante dos servidores municipais – categoria esta, bastante afetada por contágio – que disse que Bolsonaro ajudou municípios e estados, mas não deu bom exemplo, durante a pandemia, como a não usar máscaras em público; ou então a obtusa justificativa do vereador e presidente do Legislativo na última legislatura, Cláudio da Farmácia (MDB), de que “pelo status de chefe de estado, a homenagem é merecida. Em vários eu votaria com gosto, mas sobre esse não posso falar a mesma coisa”.
Não vamos nos deter muito no assunto, que creio caber até uma ação popular para barrar essa vergonhosa concessão, mas é necessário citar que entre os vereadores favoráveis há um afro-descendente, que deve ter se esquecido das palavras discriminatórias sobre os quilombolas, proferidas jocosamente pelo agraciado, durante a campanha eleitoral à Presidência; pela perda de familiares e amigos de outros; ou mesmo pela morte precoce do ex-vereador Juary Miranda (SD) – que era suplente e se preparava para retornar às lides legislativas, quando teve sua vida interrompida pela covid-19 -, passando a fazer parte das estatísticas dos óbitos causados pelo coronavírus.
Por fim, os vereadores que aprovaram tal distinção, também devem fazer vistas grossas à “CPI da Covid” que está em curso no Senado Federal e aos inúmeros outdoors espalhados pelo Brasil, que classificam Bolsonaro como genocida.
Ressalto aos 18 vereadores, que seu gesto ficará nos anais do Poder Legislativo rondonopolitano, na memória das famílias dos mortos e causando repúdio  aos que, assim como nós, discordam, veementemente, da concessão da maior honraria de nosso município a um mandatário, que não faz nenhuma questão de valorizar a vida dos brasileiros!